quarta-feira, 1 de abril de 2015

MIRAGEM ou SENTIMENTO PERDIDO

Foto por Raphael Lucena

Alguém fala ao longe: “É mesmo assim...”. Mexe a cabeça, confirma. “Fica com essas cores com o tempo", diz. "E com essas palavras. Giz de cera e versos de criança. Não tenha medo.”
Não distingo a figura, que parece falar dentro da minha cabeça, nem mesmo sei se ela diz essas coisas do que penso. Se lê mesmo meu pensamento e, caso sim, se realmente pede para que eu continue nessa direção.
Chega um momento em que o amor é essa miragem. A sede e a fome anuviam os sentidos. Correr é inútil, pois o paraíso continua sempre à mesma distância. Se não o encontra onde você está, nunca vai bastar.
Insistir. Resistir. Desistir. Em qual dos três está a coragem verdadeira, a redenção e a catarse? Difícil saber. E caro. A descoberta é a própria ressurreição.
A figura que dança, embaçada no calor da tarde eterna e seca, começa a gesticular. Não se revela. Só se faz entender mais um pouco e minha tradução é falha (ou minha visão se rende aos desejos...).
Ele diz: “Amar é a estrela (de)cifrada. Não é felicidade, momento. É vida inteira e tormento(a). Tudo o que (não) deveria ser e, no fim, mãos dadas”.
A figura some. Há uma pequena poça d’água boa para beber a meus pés. Posso caminhar mais um pouco. Morrer logo adiante? Quem sabe. Desertos são assim: cada passo é uma aposta que jamais se abre mão de fazer. 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

ADENTRE O VÓRTICE parte II: AURA

Arte por Douglas Vasconcelos

AURA
Significado: Sopro leve, perfume. 
  
Guido já não via a hora de chegar em casa.
Entrou com tudo sem fechar a porta e pôs seu presente sobre a cômoda. Chegou bem perto do vidro para ver melhor o que estava lá dentro. Um mini-furacão rodopiando nervosamente, igualzinho aos que se vê na TV engolindo casas, carros e animais. Só que pequeno. Pensou no que ouvira da menina que trombou nele com o cachorro e o coração que já batia forte agora parecia com um o ribombar de inúmeros trovões numa tempestade.
Desde o momento em que recebera o Vórtice, apenas um rosto que lhe veio à mente. A primeira pessoa a ser chamada deveria ser ela.
Tomou o vidro em suas mãos e sentou-se na única poltrona que tinha depois de jogar para o lado um monte de roupas que lá estavam. Com o vidro à altura dos olhos, pensou fixou o pensamento.
Sentiu-se envolvido pelo vento bravo do furacão, sem saber se havia encolhido ou se o vórtice aumentara levando-o céu afora. Num minuto tudo escureceu e quando abriu os olhos estava andando por uma estradinha estreita ladeada por grama que subia uma colina de solo regular. Guido conhecia o lugar. Não estava em mapa algum. Ele simplesmente o construíra. Um lugar alto e tranquilo para onde ia quando tudo dava errado.
Seguiu a estradinha até vê-la sentada na pedra em que sempre ficava a contemplar a paisagem ao longe. Os cabelos loiros voavam numa delicada dança. Não era uma imagem rara. Ele gostava de vê-la assim. Aquela era Aura de sua mente, aquela que ele imaginava. Mas hoje ela seria apenas uma porta para a entrada da Aura real. Aproximou-se dela, tocou-lhe os ombros com ambas as mãos numa massagem suave. Ela sorriu ternamente e levantou a cabeça para olhá-lo com um belo sorriso.
- Oi Aura. – disse ele fazendo-lhe um carinho no rosto.
- Oi, meu amor. – respondeu ela. – Olha como tá tudo lindo hoje.
Os dois olharam juntos os vales e riachos brilhantes das paragens imaginárias, do reino que a ele pertencia.
Guido a fez levantar-se com um gesto carinhoso. Ela passou os braços em volta de seu pescoço e aproximou os lábios dos seus. Mas antes que pudesse concluir o beijo ele pronunciou o passe.
- Adentre o vórtice.
No mesmo instante, a sensação etérea que tinha ao tocá-la em seus pensamentos foi substituída por um calor real de corpo. E ele, que sempre teve consciência de que aquela que lhe encontrava era tão inventada quanto a paisagem à sua volta, sentiu-a então verdadeiramente.
Ela piscou várias vezes e afastou-se olhando ao redor, confusa. Finalmente pôs os olhos sobre ele e fez uma expressão de estranhamento e antipatia.
- O que eu tô fazendo aqui, lesado? – perguntou.
- Bem-vinda, Aura. Você tá na minha mente.
Ela andou pelo lugar. Inquieta, não viu sinal algum de civilização.
- Mas que droga é essa? – perguntou nervosa – Essa é mais uma das tuas burradas, é?
- Que tal uma trégua, trombeta? Acho que não adianta gritar. Eu te trouxe aqui sim, mas não sei quando ou como vamos sair. Então porque não relaxa?
- Só podia ser coisa tua. – respondeu ela de braços cruzados, levemente conformada com a situação. – O que eu vim fazer aqui?
Guido estava em seu território. Lá fora ela dominava, podia chama-lo do insulto que quisesse na frente dos outros colegas, humilhá-lo. Mas algo lhe dizia que Aura estava entendendo a matéria que lhe cercava e ele se sentia completamente seguro para fazer o que quisesse, embora não soubesse exatamente o quê.
- Vamos dar um tempo nessas discussões da gente. – respondeu ele – Não estamos mais no trabalho. Eu odeio aquele trabalho, por isso faço tudo errado. Queria te mostrar umas coisas.
Ela encolheu os ombros.
- Que opção eu tenho? – disse ela.
Era linda como um anjo. Por mais que ele a imaginasse em seu melhor momento, a Aura real era muito melhor. Os dois começaram a caminhar pela estradinha descendo o outro lado da colina. Enquanto andavam, Guido desfrutava do poder que agora possuía. Era o senhor da situação e podia controlar tudo, exceto as vontades e opiniões daquela que amava em segredo no mundo real. E aquela era a única coisa que ele não queria mesmo controlar.
- Eu ganhei esse dom, esse poder de trazer as pessoas pra dentro da minha cabeça. – explicou.
- E o que te fez pensar que eu estivesse interessada em saber o que você tem nessa cabeça? – a voz dela era suave, mas ríspida. – Você é só um cara chato que vive no mundo da lua. A gente trabalha junto há quanto tempo? Uns três anos? E nunca concordamos em nada.
- Foi também por isso que eu te trouxe. Talvez se você vir o que eu penso possa me entender.
- Isso é estranho demais. – declarou ela – Por que você quer se fazer entender pra uma pessoa que você odeia e que também não gosta de você?
Teve vontade de dizer tudo ali. Que a beijara várias vezes, que a amava tanto quanto ninguém jamais seria capaz de fazê-lo. Mas em vez disso, preferiu começar pelo começo.
- Pare bem aqui. – pediu ele após andarem alguns passos – Feche e abra os olhos uma só vez, bem rápido.
Aura obedeceu. Com aquele movimento de olhos, viu-se em outro lugar. Era uma biblioteca desengonçada. Uma construção completamente diferente de tudo o que vira antes e lhe dava a impressão de ser uma colagem de vários ambientes.
- Que lugar é esse?- indagou ela num misto de admiração e espanto.
- É a minha biblioteca particular. Uma mistura de todas as bibliotecas nas quais pisei em minha vida, mas sem repetir os livros. – respondeu Guido.
Não havia ninguém lá além deles. Ela andou por vários ambientes, tocou nos livros e maravilhou-se com a atmosfera de paz do lugar.
- É bonito aqui, lesado. – disse – É esquisito, mas bonito.
- É aqui que eu construo meu espírito. Perto dos livros que eu mais gosto. É aqui que eu me inspiro. Não para criar as histórias, mas para lembrar que tantos caras também criaram e mudaram coisas com elas. Grandes caras. O que eu mais quero é ser um deles, sabe.
Aquilo enterneceu Aura. Ela quase deixou escapar um sorriso. Corou e desviou dele o olhar.
- E aquela parte ali? – perguntou ela apontando para uma seção que continha apenas uma estante com quatro prateleiras cheias de livros.
Guido foi até lá e ela o seguiu. Ele puxou um livro azul com capa de couro e começou a folheá-lo.
- Os livros desta seção são meus favoritos. Durmo e acordo pensando neles. Veja. – e entregou-a o volume.
Ela observou que o livro tinha o nome dele impresso.
- Foi você que escreveu esse livro? – perguntou com sincero entusiasmo.
Ele fez que sim com a cabeça e olhou de volta para a estante. Aura pôs o que tinha nas mãos de volta ao lugar e puxou outro e verificou o autor. Depois mais outro e mais outro.
- Incrível! Você escreveu todos esses livros!
- De certa forma sim. Só que os escrevi no futuro. – explicou – Eu preciso desse lugar para saber que irei conseguir. Quando as coisas estão difíceis e começo a pensar que não vai dar certo, venho aqui, puxo um deles e leio. Eu me reencontro na certeza de que sou capaz de cumprir com os meus anseios mais profundos.
Aura deu mais uma olhada ao redor. Já não parecia tão amarga. Aos poucos se deixava conduzir por ele e estava cada vez mais à vontade.
Com delicadeza tomou dela o livro e o recolocou. Pediu que ela mais uma vez piscasse e encontraram-se numa simpática ruazinha de subúrbio, cheia de lindas casas de muro baixo com jardins floridos e bem cuidados.
- Que rua linda. – disse ela. – É de alguma lembrança sua?
- Mais ou menos. – respondeu Guido – Quero que você conheça uma pessoa muito especial pra mim. Esta rua é das lembranças dela. Pelo menos como eu imaginei que fosse.
Ele parou em uma das casas. Bateu palmas e um cachorrinho saltitante irrompeu porta afora abanando o rabo entre os arbustos de roseiras.
- Rabito!- saudou Guido – Onde tá a Tia Alice?
O cãozinho latiu contente e Aura lhe fez um carinho. Eles entraram no jardim e logo apareceu uma jovem senhora, muito simpática, com um avental da Galinha Maggi e uma toalha de mão sobre o ombro.
- Guidinho! – disse ela – Que bom que você veio hoje, filho. – e voltando-se para Aura: - É ela a moça de quem você fala?
- É sim, tia. – confirmou ele – Tem café e bolo hoje?
- Claro, Guidinho, podem ficar à vontade.
Ficaram lá a tarde toda. Com seu jeito adorável, Tia Alice contou a Aura sobre como Guido cresceu praticamente sozinho, somente com seus livros e seus brinquedos como companhia. Ela teve de cria-lo até os dez anos, pois os pais do menino trabalhavam muito. Contou das peripécias dele e de como acharam Rabito numa caixa perto do cemitério e o levaram para casa para curar as pulgas e as feridas sem precisar de veterinário. Aura riu muito e achou delicioso o bolo de chocolate de Tia Alice. Ela e Guido brincaram de bola com Rabito no jardim como se fossem crianças.
- Sua tia é muito legal. – disse Aura puxando a bolinha da boca de Rabito. – Por que você só morou com ela até os dez anos?
- Porque ela morreu. – respondeu Guido com toda a naturalidade.
- O quê? – perguntou ela assustada.
- Ela teve um ataque do coração. Minha mãe precisou largar o trabalho pra ficar comigo. Minha mãe sempre se esforçou, mas nunca fui tão feliz quanto era com a tia. Mas por favor, não mencione morte na frente dela. Quando se fala sobre isso ela adoece e morre aqui nessa parte da minha mente e ressuscitá-la é sempre muito difícil.
Guido explicou que Rabito morrera pouco antes, atropelado por um motociclista bêbado que subiu a calçada. A rua linda em que Tia Alice morava, bem como a casinha eram as projeções que ele fazia das lembranças que Tia Alice relatava da própria infância e da vontade dela de um dia poder morar novamente na rua em que cresceu.
 Na hora de despedir-se, Aura deu um abraço caloroso em Tia Alice.
- Adeus, tia. Nunca vou me esquecer da senhora, nem do bolo, nem deste lugar maravilhoso. – nesse momento Rabito latiu a seus pés e ali ficou balançando a cauda – Ah, nem de você, Rabito. – disse ela por fim fazendo festinha em seu focinho.
- Eu sei que você não vai mais poder voltar aqui, filha. – disse Tia Alice – Mas daqui eu vigio e oro por você. Deus lhe abençoe.
Guido beijou a tia e despediu-se de Rabito. Os dois desceram a rua e ao chegar na primeira esquina ele pediu que parassem.
- Então? O que achou? – perguntou Guido.
- Nunca pensei que você tivesse tantas coisas boas nessa sua cabeçona, lesado. – quando disse isso, corou e ficou visivelmente constrangida de ter deixado escapar o pejorativo com o qual o tratava. Mas logo se recompôs e concluiu: - Tô muito feliz de estar aqui. Feliz como há muito não me sentia.
- Que bom, trombeta. A última parte do nosso passeio dependia disso.
Novamente pediu que ela fechasse e abrisse os olhos. Viram-se então no interior de um belíssimo palácio, em um salão de piso tão lustroso que os refletia parcialmente. A arquitetura do lugar permitia que a luz do sol invadisse o salão banhando de brilho os lustres de cristal e os adornos dourados que arabescavam o teto, as paredes e os rodapés.
- Meu Deus...- murmurou ela – Onde a gente tá agora?
- Nesse momento, onde a gente tá não importa. Inventei este ambiente só por causa da importância que tem a pessoa com quem você vai conversar agora. Ah! Aí vem ela. Tenho que deixa-las.
Guido saiu e segundos depois Aura viu entrar uma figura belíssima. Uma moça loira trajando um vestido longo enfeitado com pequenos diamantes que brilhavam sob a luz da manhã e, embora fosse um vestido pomposo, nela caía com perfeita simplicidade.
Era uma criatura iluminada cuja presença lhe trazia enorme paz, de um perfume tão delicado que lhe animava a alma e fazia sentir que nada de ruim jamais poderia acontecer. A moça se aproximou dela atravessando o salão sem que seus passos ecoassem ao tocar o chão. Aura viu então que a linda aparição era ela mesma e uma profunda emoção lhe tomou.
- Meu Deus... - murmurou Aura levando as mãos à boca.
- Olá, Aura. – saudou a moça – Não esperava que alguém lhe imaginasse assim, não é?
Os olhos de Aura encheram-se de lágrimas.
- Na maior parte do tempo é assim que ele te vê. – continuou seu outro eu - Ele escolheu o que havia de melhor em seu pensamento e trouxe pra este lugar.
- Mas isso é lindo demais. – disse Aura – É tudo muito perfeito. Ele me vê como um tipo de princesa imaculada, inocente e gentil. E eu nunca demonstrei ser isso perto dele. Eu sou rude, às vezes até cruel...
- Ele sabe disso. – a outra interrompeu - E não pretende se enganar ou lhe enganar. O objetivo de você estar aqui é apenas o de ter a certeza de que pelo menos uma pessoa no mundo consegue enxergar você exatamente como você é por dentro.
Ao ouvir isso, Aura chorou sem medo, como alguém que finalmente recebe um presente esperado por anos. Passou ainda mais um tempo junto de sua outra parte, passeou pelo palácio, perguntou coisas. Por fim, chegaram a uma enorme porta dupla entalhada em mogno que parecia ser a saída do palácio.
- Este é o fim da sua viagem, Aura. – disse a outra.
- Ele está me ouvindo agora?.
- De certa forma, ele é tudo ao seu redor. Desde a carne que você está vendo em mim até o concreto das paredes. Até minhas falas são ele.
Aura respirou fundo antes de se despedir daquele reino de coisas boas por onde ela caminhava soberana.
- Eu só queria que ele soubesse o quanto eu tenho vontade de ficar aqui pra sempre.
- Mas você estará sempre aqui, Aura. Quando se entra na vida de alguém, deixa uma marca indelével na forma de um universo inteiro que se desenha ao redor do que você representa para ela. Há tantos universos em sua mente quanto há pessoas que lhe tocam no coração. Esses universos podem até ser esquecíveis, mas certamente são indestrutíveis.
Aura abriu a porta e saiu para um imenso jardim. Mas antes de seguir, deteve-se indecisa e olhou para seu outro eu.
- Acho que vou me apaixonar. – disse ela.
A outra sorriu satisfeita. Aura continuou o caminho jardim afora e foi engolida por uma luz que aumentava à medida que avançava.

***
Guido acordou no dia seguinte. Dormira em sua poltrona com tudo em volta revirado, esperando a prometida faxina de semanas. O Vórtice revolto dançava aprisionado no vidrinho que ainda jazia em seu colo. Olhou no relógio do celular e viu que estava atrasado para seu detestável trabalho. Mal teve tempo de tomar banho, arrumar-se e engolir um pedaço de pão dormido com manteiga, teve de sair correndo pegar um ônibus lotado.
Já estava no auge do estresse quando chegou e bateu seu ponto. Com certeza teria uma hora de salário descontada no mês seguinte. De novo.
Sentou-se à mesa de seu cubículo e ligou o computador. O sangue fervia de raiva de sua rotina. Esperava ver o chefe apontar ali a qualquer momento para reclamar de tudo e a única coisa que queria era relembrar os momentos em que esteve com Aura dentro de sua mente. “Quisera que fosse real”, pensava.
Sentiu uma mão dando-lhes tapinhas no ombro. Desta vez o chefe iria ouvir. Não se importava mais se fosse demitido, que se danasse o emprego, não iria suportar outro sermão. Virou-se com tudo, pronto para gritar, mas em vez do chefe, quem estava ali diante dele era Aura.
- Trombeta? – disse surpreso.
- Atrasado de novo, hein, lesado? – disse ela em tom sério.
O coração de Guido disparou feito o motor de uma motocicleta. Aura retirou-se ainda séria. Antes de entrar no corredor, porém, ela virou para ele que a assistia indo embora, e abriu um sorriso cúmplice.
- Diga à Tia Alice que quero a receita do bolo. – disse ela antes de piscar o olho esquerdo para ele.
Guido recostou-se em sua cadeira sem fôlego. O motor da motocicleta passou para a rotação máxima. Finalmente algo de extraordinário aconteceu.


GUIDO
Significado: florestas, bosques. Criança da floresta, pessoa que, ajudada pela intuição investe o seu tempo e a sua energia em atividades que lhe dão um excelente retorno. No amor tarda a amadurecer e procura alguém que lhe dê tudo sem pedir nada em troca, pois tem medo de abrir mão da sua liberdade.





quarta-feira, 26 de novembro de 2014

PRESENTE IMPERFEITO

Arte por Geoges Méliès

"Acredite na  urgência resoluta do agora." - Tonight, Tonight, Smashing Pumpkins


Sempre penso que se alguém olha para o céu na noite, ao mesmo tempo em que você, isso é uma forma de estar junto.
Ainda costumo sair de madrugada e olhar naquela direção. Porque um dia, como tantas coisas que o amor provoca, quis ver a única luz da noite encontrar a única luz da esperança. Duas belezas que colidem como no nascimento das fadas. Pro coração bater mais forte. Vício de errar no desejo.
As estrelas? Quem disse que elas brilham? Aquilo não é brilho. São só olhos de testemunhas. Sonsas. Elas vigiam lá de cima o jeito como o amor nasce, cresce, se machuca, e cresce mais, e se machuca mais, e cresce mais e...
...é só isso que o amor faz da vida. Da nossa vida. Parece que o amor só faz doer. Leva a gente de um canto pra outro, ora caminhando pro abismo. Mas só parece. Outra coisa ele faz.
Transforma. Vira coisa linda dentro de nós. Vira força. Ás vezes uma força triste. E nem sempre “triste” quer dizer “ruim”. Às vezes triste é só saudade. Ás vezes é só vontade. Ás vezes é ferida sarando, decepção se apagando, novo tempo chegando.
Mas, no mais das vezes, amor é abraço, cheiro bom de cabelo lavado. É beijo. É abraço, calor, dormir junto. É brigar sabendo que o outro perdoa. É derrubar, sabendo que, se cair, a gente voa. É música. Texto, desenho e cor. Rir, beber, comer.
Parece que amor é só fazer. Vai ver que é. Mas não fazer direito. É um fazer imperfeito, senão, inexiste. Amor perfeito é mais que triste. O amor tem que ser sujo e cego pra prestar.
Hoje estavam lá, as estrelas sonsinhas, rindo da minha cara. Nem liguei. Luz da noite, luz da esperança. Esse brilho existe, que eu o veja ou que não. Hoje é dia de brilhar mais forte. Daqui calado, debaixo da lua tímida e cansada, juntei meus caquinhos de bem-querer e pedi, mais forte que qualquer vento e vontade, que seu presente lhe chegasse às mãos: Amor imperfeito assim. Cego, sujo e verdadeiro. Amor de gente feliz.






sexta-feira, 5 de setembro de 2014

DELICADA FLOR DE SONHO

Art by Sophie Blackall


Os sonhos de outras pessoas também são assim? Cenários misturados, pessoas desencontradas sob um céu positivamente escuro...



Ele corre contra o tempo. As ansiedades do mundo desperto geram cenas frenéticas, mas a pressa não é para os outros. É para si. Terminou um dia de trabalho e o coração bate forte. Alguém espera. Um passo e já está lá. É um cinema. Gigantesco. Muitas pessoas. Ele entra na sala, o filme já terminou. Não importa, foi o que combinaram. Ela estaria lá, à espera.
Apenas pôs os pés além da cortina e as luzes se acenderam. Muita gente andando, falando, saindo.
Seu olhar, do alto do auditório procura um rosto que deve brilhar entre mil. O coração bate forte. É medo de não encontra-la. Ou de encontra-la. Namoram há poucos dias e tudo é tão recente, repentino e delicado...
O sentimento que ele deseja no olhar dela é uma florzinha, das mais pequeninas e mimosas. Daquelas que a gente torce pra nunca murchar. Rega, beija e faz carinho. Aprende até a rezar. Tão frágil, raro. Perfumado. Ainda está lá? Terei de pedir um beijo ou vou ganha-lo? Mereço?
A gente dali foi rareando. O olhar dele esquadrinhava todo o lugar. Parou nela de pé, lá embaixo. Os olhos também procuravam. Por ele. Ai, coração pequeno! Quase para. Está lá. A florzinha viva. Muito mais que viva. Mágica e linda. Ela sobe o auditório com um sorriso matador. Não pare, coração. Precisa acontecer um beijo. Está aqui ela, chegou bem perto. Os braços o envolveram. Os lábios o tocaram. Chame o Guiness: novo recorde mundial de felicidade.
Meninos sonham assim.
A noite acaba, hora de acordar. A florzinha, o sentimento, vira segredo de alma. Paixão não o descreve. Amor é grande demais. Deixa sem nome. Sente só, que era mesmo florzinha que morreu. Ele a põe amassadinha dentro das páginas de um livro. Um dia vai contar pra alguém que sentiu tudo de novo.


Nas noites por vir, abre o livro. O coração se permite querer que em algum lugar, uma moça tenha sonhado com alguém depois de um filme, aparecendo na multidão a se perguntar: “Ainda está lá?”.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

TESTEMUNHAS DO MAGNÍFICO

Art by Jim Daly?


Noite passada, quis algo bom para reger meu sono. Não lembro o que sonhei. Mas confio na precisão dos meus desejos, porque na manhã de hoje tive coisas para fazer: nenhuma a ver com trabalho. Eu deveria estar triste, mas mentir assim não funciona.
Nesse estado eu saio e assumo as tarefas.
Pequenos eventos que só acontecem na mente de alguém lisergicamente feliz, eles pipocam de lado a lado da cidade. Como gnomos espreitando nas esquinas, passando correndo nas pontas dos pés, caçoando dos “despreocupamentos“.
Autoridades afirmam que isso não é felicidade. Mas há controvérsias.
Dinheiro alimenta máquinas. Também alimenta aquelas máculas fosforescentes que as religiões chamam de pecado. Faz isso silenciosamente por dentro, escandalosamente por fora. Minha saúde e a dos meus, o livro em minhas mãos, as ideias na mente, respirar normal e ver tardes incríveis podem ser um pequeno momento e para vivê-lo não adianta dinheiro. Pois é disso que tenho fome, não sou máquina. E ninguém jamais precisará competir comigo.
Hoje quero uma tigela de cochichos sobre uma nova história sendo escrita. Uma fatia de alguém ouvindo R.E.M. no ônibus. Três copos de crianças inventando letras poéticas enquanto soltam pipa na rua e de sobremesa uma belíssima e finamente adornada taça de risadas com meu melhor amigo, seja lá quem ele for hoje.
Neste mundo a esperança é uma gordice. Uma deliciosa infração. Somente satisfeitos, com as mãos lotadas de delito, é que enxergamos cúmplices. E os grandes feitores da Civilização não passam de tolas, ansiosas e famintas testemunhas do magnífico.


sábado, 28 de dezembro de 2013

QUE FIM É APENAS O FIM?

Livraria atingida por ataque aéreo - Londres, 1940. 

Todo mundo tem algo que considera importante na vida. Um conjunto de pessoas, valores, noções que lhe são caras e que são o motivo de continuar. E no meio dessas coisas que se pode tocar e das outras que preenchem a alma, há aquilo de natureza indefinível.
Nem é matéria, nem energia, nem pensamento. O dia segue. Tristezas e alegrias, trabalhos e lazer. Tudo passa e é sorvido na velocidade de uma refeição. Mas a coisa indefinível está lá. Se você está me lendo agora, existe uma séria possibilidade da sua ser parecida com a minha. Já que eu não posso definir, talvez possa apenas falar algo a respeito. E se você sorrir...
Quando acordar é encontrar um sol manso, como se o próprio dia dissesse bom dia. Há uma solidão que parece um brinquedo novo, o papel de presente deixando um cheiro bom de surpresa, de ânimo. E esse brinquedo é dos que você aperta um botão e se transformam em outra coisa. Talvez seja da Glaslite, quem sabe da Gulliver ou da Estrela. Que diferença faz?
Há dias que a tarde é linda. Eu tento sempre pensar que neste exato momento há alguém plenamente feliz com tudo. Fico imaginando se um dia vou chegar a conhecer essa pessoa e numa conversa casual ela vai me dizer: “No dia tal eu estava tão feliz! Foi o melhor dia da minha vida!” E aí eu digo: “Sim, eu sei. Eu estava pensando em você.” E ele ou ela diz: “Impossível, isso foi há vinte anos, a gente nem se conhecia.” E eu digo: “Você nunca conversou com estranhos?”
Mas talvez a noite seja a mãe dos livros. É quando as musas passeiam e as ninfas cantam. Quando monstros despertam e os guerreiros bebem para saírem abraçados, cantando canções engraçadas. Hoje eles conhecem carros e ônibus que trafegam por avenidas iluminadas e os embates se dão entre catedrais e nas trevas dos becos.
Manhã, tarde e noite. O tempo possui fendas por onde escoam histórias, passagens para lugares imensos. De Nárnia à Terra do Nunca. A Terra Média, Shangri-la. Metrópolis, Gothan, os Domínios dos Perpétuos. Imatheria. E em sua mente, talvez aquele que jamais se repetiu.
Por aquilo que me move me perdi e me encontrei num outro tempo. Quando aqui acordei, vi que nada mais será como antes. Em sua busca talvez você se depare com o mesmo e também se assuste. Mas talvez aprenda lição semelhante à minha. Devemos ter grandiosos desejos, mas eles jamais podem ser maiores que nós mesmos. Eles devem nos completar e não nós a eles.
Tudo acontece quando a gente fecha um olho. Tudo acontece quando a gente fecha o olho certo. Isso faz a gente conquistar o dia e engravidar a noite. Ou engravidar dela. E ver nascer a luz de outro poder, abrindo fendas no tempo, se esgueirando entre realidades, mandando mensagens e conjurando amigos. Esta foi a jornada em busca de uma voz para o inominável. Saga de transformações, nascimentos e mortes. De promessas e ações. Fim verdadeiro.
E que fim é apenas o fim?
Se você sorriu...então somos irmãos. Que a paz do Altíssimo permaneça com você.

(Quem souber o autor da foto, por favor, mande comment.;)


terça-feira, 10 de dezembro de 2013

NA BARRIGA DO PEIXE

Art by Kayamori


Reza a lenda que de tempos e tempos, Tracapus, o peixe galáctico que contém a passagem para outros universos em sua barriga, aparece neste mundo e leva consigo aqueles que possuem grandes aspirações.
Essa lenda ficou esquecida entre os mesopotâmicos, os hebreus e inúmeros outros povos antigos. Alquimistas acreditavam que quando Tracapus estava prestes a adentrar nossa realidade, aparecia décadas antes em sonhos (e pesadelos) de homens e animais, suscitando histórias, visões apocalípticas ao redor das quais charlatões, xamãs, médiuns e profetas eram construídos.
 Assim, Tracapus convoca seus aventureiros estimados ao redor do mundo. Ele os atrai para o alto mar e os engole. Depois de completada a busca, submerge e se vai para os recônditos desconhecidos onde por séculos se esconde.
Depois de acordar, o rapaz apenas sabia de tudo isso. O mesmo Jorge que sonhou com uma decisão no deserto, agora está diante do mar.
Assim como seus companheiros, jamais ouvira falar de Tracapus. Assim como todos os habitantes da cidade, não tinha ideia de onde vieram ou para onde iriam os barcos misteriosos que estava encalhados na praia há semanas. Mas seu olhar sereno aceitava o chamado de Tracapus. Era certo que os amados amigos o seguiriam, por isso a calma de seus passos.
E depois de embarcar, nada mais seria como antes. As coisas mudariam para Jorge e seus amigos. E as coisas mudariam também para Tracapus.

Até as Lendas sabem que uma mudança não vale nada se não for de dentro para fora. E que não merecem ser contadas se não forem completas.